Resposta rápida: a anamnese capilar é a entrevista estruturada que vem antes de qualquer tratamento. Uma ficha completa cobre 8 blocos: identificação, queixa principal, histórico de saúde, medicamentos, hormônios, hábitos e alimentação, rotina capilar e químicas, e expectativas — seguida de fotos padronizadas, consentimento e critérios claros de encaminhamento médico.
Toda terapeuta capilar já viveu esta cena: a cliente senta, aponta a risca e diz "meu cabelo está caindo muito". A tentação é pegar o tricoscópio na hora e sugerir um protocolo. Mas sem uma anamnese capilar bem feita, você está tratando uma hipótese — e vendendo produto, não tratamento.
Neste guia você encontra o roteiro que uso e ensino há mais de duas décadas: os blocos da ficha, as perguntas que realmente mudam a conduta, os sinais de alerta e como registrar tudo com segurança.
Por que a anamnese capilar vem antes da tricoscopia
A tricoscopia mostra o que está acontecendo no couro cabeludo: miniaturização, oleosidade, descamação, vermelhidão. A anamnese explica por quê. Uma queda difusa pode ser eflúvio por estresse, deficiência de ferro, tireoide, pós-parto ou uso de caneta emagrecedora — e a imagem ampliada, sozinha, não diferencia todas essas causas.
Além disso, a anamnese:
- define se o caso é para terapia capilar ou para o médico (ou para os dois);
- evita contraindicações, como ativos e equipamentos em gestantes ou em couro cabeludo com feridas;
- cria a linha de base para comparar resultados;
- aumenta a percepção de valor — a cliente sente que foi ouvida, e isso fideliza.
Ficha de anamnese capilar: os 8 blocos essenciais
1. Identificação e contato
Nome, data de nascimento, profissão, contato, como conheceu o serviço. A profissão importa: quem usa capacete, touca ou trabalha exposta ao sol tem rotina capilar diferente.
2. Queixa principal
Deixe a cliente falar primeiro e anote com as palavras dela. Depois aprofunde:
- Desde quando percebeu? Foi de repente ou aos poucos?
- Onde nota mais: topo, risca, têmporas, nuca, cabeça toda?
- Cai com raiz ou quebra no comprimento?
- Há coceira, ardor, dor, descamação, oleosidade, feridas?
- Alguém na família tem queixa parecida?
3. Histórico de saúde
Doenças atuais e anteriores, cirurgias nos últimos 12 meses, febre alta ou infecções recentes, anemia, tireoide, doenças autoimunes, dermatológicas (psoríase, dermatite) e alergias, inclusive a cosméticos.
4. Medicamentos e suplementos
Liste tudo, inclusive o que a cliente considera "natural". Anticoncepcionais, antidepressivos, anticoagulantes, retinoides, medicamentos para tireoide, canetas emagrecedoras como semaglutida e tirzepatida, minoxidil, finasterida e suplementos. Pergunte há quanto tempo usa e se houve mudança de dose. Mudanças 2 a 4 meses antes da queda são pistas valiosas — veja o exemplo em queda de cabelo com Mounjaro e Ozempic.
5. Fase hormonal
Ciclo menstrual (regular? fluxo intenso?), gestação, amamentação, pós-parto, menopausa, terapia hormonal, sinais como acne súbita ou aumento de pelos no rosto.
6. Hábitos e alimentação
Qualidade do sono, nível de estresse (de 0 a 10), atividade física, tabagismo, consumo de álcool, dieta vegetariana ou restritiva, perda ou ganho de peso recente, ingestão de água e de proteína.
7. Rotina capilar e químicas
- Frequência de lavagem e temperatura da água;
- Produtos usados (peça fotos dos rótulos);
- Secador, prancha, babyliss: frequência e temperatura;
- Penteados presos, tranças, apliques;
- Químicas nos últimos 12 meses: coloração, descoloração, alisamento, progressiva — e intervalo entre elas.
8. Expectativas e disponibilidade
O que a cliente espera? Em quanto tempo? Quanto tempo e investimento ela pode dedicar ao protocolo? Alinhar expectativa aqui evita frustração depois.
Sinais de alerta: quando encaminhar ao dermatologista
Encaminhe antes de iniciar qualquer protocolo se houver:
- falhas redondas e lisas, ou em áreas com cicatriz;
- feridas, pus, crostas espessas, dor ou sangramento no couro cabeludo;
- queda intensa há mais de 6 meses sem causa aparente;
- sinais de alteração hormonal (acne súbita, hirsutismo, ciclo irregular);
- perda de peso sem explicação, cansaço extremo ou febre;
- suspeita de alopecia androgenética, que exige tratamento médico.
Encaminhar não é perder a cliente. É mostrar ética — e, na maioria das vezes, ela volta para fazer o protocolo de apoio com a sua equipe.
Fotos padronizadas e registro
A anamnese termina com fotos padronizadas: mesma luz, mesma distância, mesmos ângulos (frontal, topo, risca central, laterais, nuca) e as imagens de tricoscopia das mesmas regiões. Anote a ampliação usada. Sem padronização, a comparação de antes e depois do protocolo não tem valor.
| Registro | Primeira consulta | Retornos |
|---|---|---|
| Ficha de anamnese completa | Sim | Atualização |
| Fotos clínicas (5 ângulos) | Sim | A cada 30–60 dias |
| Tricoscopia (mesmas áreas) | Sim | A cada 30–60 dias |
| Termo de consentimento | Sim | Novo termo se mudar o protocolo |
| Evolução e condutas | Sim | Toda sessão |
Consentimento e LGPD
Dados de saúde são dados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018). Por isso, a ficha deve incluir:
- consentimento para o procedimento, com riscos e contraindicações explicados;
- autorização específica para uso de fotos (uso interno, técnico e, separadamente, divulgação);
- informação sobre como os dados serão armazenados e por quanto tempo.
Guarde fichas em local seguro — pastas trancadas ou sistemas com senha — e nunca envie fotos clínicas por grupos de mensagem.
6 erros comuns na anamnese capilar
- Fazer perguntas fechadas demais. "Você tem estresse?" rende um "não". "Como foram os últimos seis meses para você?" rende a história do luto, da mudança de emprego ou da cirurgia que explica a queda.
- Ignorar o que a cliente chama de natural. Chás, fórmulas manipuladas, óleos essenciais e suplementos de academia entram na lista de medicamentos.
- Não perguntar sobre o intervalo entre químicas. Alisamento seguido de descoloração em poucas semanas explica muita "queda" que, na verdade, é quebra.
- Esquecer a linha do tempo. Queda de hoje costuma ter gatilho de 2 a 4 meses atrás. Pergunte sempre o que mudou nesse período.
- Prometer resultado na primeira consulta. Antes da reavaliação, fale em hipóteses e metas, não em garantia de crescimento.
- Não atualizar a ficha nos retornos. Novo remédio, gravidez ou dieta mudam a conduta. Cinco minutos de atualização em cada sessão evitam erro e mostram cuidado.
Dica de atendimento
Envie parte da ficha antes da consulta, por formulário digital, com os blocos de identificação, medicamentos e rotina. Assim a conversa presencial fica livre para o que importa: ouvir a queixa, investigar a linha do tempo e explicar o que você está vendo no tricoscópio.
Da anamnese ao protocolo
Com a anamnese capilar, a tricoscopia e as fotos em mãos, você formula uma hipótese, define se o caso é seu, do médico ou compartilhado, e só então monta o protocolo: higienização, ativos, equipamentos, número de sessões, rotina em casa e data de reavaliação. Esse encadeamento é o que transforma um atendimento pontual em um tratamento com começo, meio e fim.
Perguntas frequentes
É a entrevista estruturada que o terapeuta capilar faz antes de qualquer avaliação ou tratamento: queixa, histórico de saúde, medicamentos, rotina, químicas, alimentação e expectativas. Ela orienta a tricoscopia, o protocolo e o eventual encaminhamento médico.
Na primeira consulta, de 20 a 40 minutos, incluindo a conversa, o preenchimento da ficha e as fotos padronizadas. Nos retornos, uma atualização de 5 a 10 minutos costuma bastar.
Não. Solicitar e interpretar exames laboratoriais e diagnosticar doenças é atribuição médica. O terapeuta pode perguntar sobre exames já feitos, registrar e, diante de sinais de alerta, encaminhar ao dermatologista.
É recomendável. A assinatura confirma que as informações foram prestadas pela cliente e registra o consentimento para o procedimento e para o uso das fotos, em conformidade com a LGPD.

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Nelma Faleiro é especialista em Tricologia Cosmética, graduada em Visagismo e Terapia Capilar e foi docente da Universidade Anhembi Morumbi por 10 anos. Conteúdo educativo para profissionais; respeite sempre os limites legais da sua atuação.

